ANDAI NELE – Cl.1:1,2 (Introdução)
Data: (+-) 60 A.D.
Autoria: O autor se apresenta como apóstolo (“enviado”): no sentido técnico da palavra, um mensageiro, um agente autorizado, com os direitos de um procurador. Um mensageiro de Cristo, “por vontade de Deus” (Cl.1:1). Com base em Ef.2:20, Paulo endossa a afirmação do Talmude judaico: “Um homem enviado é equivalente àquele que o enviou”. A Igreja foi fundada sobre os apóstolos e profetas, já que são eles que garantem os fatos históricos sobre os quais está alicerçada a nossa fé.
* Disso deduzimos três coisas:
- A Igreja só é Igreja de Cristo enquanto for apostólica, isto é, enquanto seguir as normas doutrinárias e as práticas que lhe legaram os apóstolos.
- A inspiração do Novo Testamento é igualmente apostólica. Cremos em Cristo assim como ele foi crido e interpretado pelos apóstolos e profetas.
- A Comissão apostólica não pode ser transmitida a outrem. Não há nenhuma base para a crença católico-romana de que há uma sucessão de homens que podem exercer a autoridade infalível dos primeiros apóstolos.
Destinatários: Os destinatários são descritos como “santos e fiéis irmãos”, designação característica do Novo Testamento:
- Santos: Literalmente, refere-se a algo ou alguém diferente. Da raiz, que quer dizer saudável, passou a significar separado, para indicar possessão e uso exclusivos de Deus. Os santos recebem esta qualificação pelo preço da redenção, que os comprou (1Co 6:20), e pela presença do Espírito Santo, que os santifica.
- Fiéis: Refere-se aos que crêem; não há, no grego, qualquer distinção entre quem crê e quem é fiel. A ênfase diz respeito à entrega confiante a Cristo, que passa, então, a controlar todos os aspectos dessa vida que descansa nele. A fidelidade evidencia uma fé realmente salvadora (Cl 1:23 ; Hb 3:14).
- Irmãos: São os membros da mesma família, da qual Deus é o Pai. No judaísmo, chamava-se de irmão tanto a um compatriota quanto a um prosélito. Como filhos adotivos, tornamo-nos igualmente irmãos de Jesus Cristo e irmãos uns dos outros.
Saudação: Paulo saúda os irmãos com os termos “graça e paz”:
- Graça: Lembra a saudação comum no grego, que é traduzida como Ave! Graça é todo favor imerecido que Deus nos concede incessantemente.
- Paz: Traduz a palavra grega que reflete o conceito hebraico de Shalom, indicador de prosperidade e bem-estar outorgados por Deus àqueles que o amam.
Contexto: Paulo, mesmo estando sempre a orar pelos Colossenses, nunca chegara a visitar essa Igreja, até então. Ao receber o relato de Epafras, um dos líderes da Igreja, juntamente com Arquipo (Cl.4:17), escreve essa carta com o propósito de combater a heresia do momento: uma mistura de elementos judaicos e gnósticos. Era uma luta travada assim em duas frentes:
- A Liberdade Evangélica X O Legalismo dos Judaizantes:“Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou lua nova, ou Sábado, porque tudo isso tem sido sombra das cousas que haviam de vir”(Cl.2:16,17). Esta frase faz-nos lembrar do judaísmo.
- A Verdade Salvadora X O Gnosticismo:“Culto aos anjos”, “Visões”, “Rudimentos do mundo”, e proibições de tocar, manusear e provar (Cl.2:18-21) indicam uma forte inclinação para o gnosticismo.
Era uma época de experiência e fomentação de movimentos antagônicos. Promessas cativantes emanavam das religiões orientais, cheias de mistérios, fundadas num certo tipo de magia induzia uma profunda experiência religiosa, descrita como “união com um Deus” da religião, fosse Isís ou Cibele, Osíris ou Dionísio. Assim, uma religião se confundia com a outra. O estoicismo queria aliar a filosofia do ocidente à religião do oriente, como o espiritismo e o catolicismo se unem na fé popular brasileira. Possidônio nos oferece um bom exemplo: era cientista, importante platonista, mas também um místico e astrólogo, e acreditava firmemente na união com um Deus.
O Problema: Depois de terem ouvido e crido no evangelho salvador, como foi que os Colossenses se sentiram atraídos por conceitos tão inferiores? Convém observar que o desafio surgiu da luta humana contra o poder do mal e do azar. Como se poderia admitir a realidade de um Deus criador, Todo-Poderoso, onisciente e bom, que permitisse o sofrimento no seu universo? Os gnósticos propuseram a solução da separação, do Deus bom de um lado, e do mundo matéria, do outro. O homem, pelo conhecimento (gnoses, isto é, conhecimento esotérico) e acertada adoração, poderia influenciar os poderes angelicais e demoníacos que dominavam o espaço entre Deus e o mundo. Assim vieram a apoiar uma teologia que, por um lado, era ascética, de privação do material para se elevar e escapar; por outro lado, defendia o antinomianismo, que consistia em comer, beber, e entregar-se às orgias sexuais, já que o ser humano estaria envolvido no mundo material (Ap.2:14).
A Reação de Paulo: Diante desse quadro, Paulo não ficou inerte. Em sua luta contra essa sutileza filosófica, ele emprega quatro métodos:
- Advertência: “Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas…” (2:8). Não pode haver harmonia entre a verdade evangélica e as mentiras inventadas por mentes não iluminadas pelo Espírito de Deus.
- Usa os termos chaves dos hereges contra as suas próprias doutrinas.
Ex: “plenitude” (do grego: pleroma, que aparece dez vezes em Cl.), “conhecimento pleno” (do grego: epignosis), “mistério” (do grego: mysterion). - Dá à história o seu devido lugar, como percebemos nos pretéritos repetidos, ao destacar o que realmente aconteceu nos eventos da morte, ressurreição e entronização de Jesus Cristo.
- Exalta a Cristo, o Filho de Deus, que se tornou carne por nós, homens. Enquanto o gnosticismo colocou a matéria em oposição a Deus, a encarnação traz o Deus transcendente para dentro da nossa humanidade.
Conclusão: Em síntese, Paulo nos mostra em Colossenses que é no senhorio de Jesus que jaz toda a esperança da humanidade. O primeiro credo da Igreja, “Cristo é o Senhor”, é o tema dessa carta. Nela aprendemos que o cristão não somente aceitou a Cristo como Senhor num momento de sua vida, mas deve viver sua vida nesta mesma condição, ou seja, submisso ao senhorio de Cristo.
“Ora, como recebeste a Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele” (Cl.2:8)
JESUS CRISTO, O SENHOR DE TODA A CRIAÇÃO – Cl.1:13-23
Introdução:
- O resgate que Deus efetuou no passado: Deus montou uma operação resgate para libertar os pecadores do poder das trevas. Foi nessa investida contra o reino satânico, levada a efeito por Jesus, que a luz brilhou naquele império, construindo a ponte que daria acesso dali ao reino do Filho.
* Ele nos libertou (V.13): Os santos já não estão sujeitos à escravidão do pecado e de satanás, uma vez que Ele nos transportou (o tempo aoristo no grego, mostra uma ação completada) para o reino de Jesus. - a redenção presente: Enquanto o v.13 coloca no passado o resgate e o transporte de um reino para o outro, o v. seguinte declara a verdadeira salvação presente. Em Cristo temos a redenção, Ele é o redentor (“goel”= resgatador – parente que tinha condições de readquirir o que tinha sido vendido ou escravizado – Rt.2:20 ; 4:1-12).
- O perdão dos pecados: Além do transporte para o reino de Cristo e da redenção, temos ainda o privilégio de gozar a paz advinda do total pagamento da dívida, dando-nos acesso à plena comunhão com Deus e uns com os outros.
1o) O Senhorio de Cristo na Criação:
Nos vv. 15 a 17, Paulo deixa de lado a obra redentora para considerar a grandeza da pessoa de Jesus Cristo:
- Ele é a imagem do Deus visível…” (v.15).
Nosso Senhor reflete perfeitamente, tal como um espelho, a exata natureza de Deus que, embora oculto aos olhos pecaminosos, se fez visível através do seu Filho, que o revelou (Jo.1:18; Hb.1:3)
- “Ele é o primogênito da criação” (v.15)
Esta afirmação ressalta a verdade da primazia de Jesus Cristo como o primeiro gerado, o herdeiro de tudo. Na antiguidade, o primogênito também exercia a soberania da casa (Gn.25:31 ; 27:29,37 ; 49:3 ; Sl.24:1 ; 89:27; Rm.8:29)
- Por que o Senhor foi exaltado à primogenitura?
- “Nele, todas as coisas foram criadas” (v.16)Jesus é a fonte originadora de tudo o que existe no céu e na terra.
- “Tudo foi criado por meio dele” (v.16)Cristo é o agente do poder criador de Deus
- “Tudo foi criado para ele (v.16)Ele é o alvo da criação
- Por que a primazia pertence a Cristo?
- “Ele é antes de todas as coisas ” (Jo.8:58)
- “Nele tudo subsiste” (Hb.1:3)
2o) O Senhorio de Cristo sobre a Nova Criação:
* Em relação à Igreja, encontram-se nos vv.18 e 19 quatro afirmações de grande significado:
- O Cabeça do Corpo: Assim como Eva foi criada do corpo de Adão, também a Igreja surgiu pela encarnação do único Filho de Deus, que na sua morte e ressurreição se ofereceu para criá-la (Jo.2:19-21). Ao se dizer que o Senhor é a “cabeça”, está implícita a sua inseparabilidade do “corpo”; os benefícios da redenção fluem da cabeça para o corpo.
- O princípio da Nova Criação: Cristo estabeleceu o esboço da Igreja, assim como os alicerces dão, em princípio, a idéia projetada de como será o prédio.
- O Primogênito de entre os mortos: Focalizando a ressurreição (Ap.1:5), esta frase declara que o Senhor tem o direito de governar a sua Igreja por ser o herdeiro, o primeiro e o principal dentre muitos irmãos.
- Nele reside toda a plenitude: O termo plenitude (pleroma) denominava, para os gnósticos, todas as emanações que ocupavam o espaço entre o deus espiritual e o mundo material. É nesse sentido que Paulo revela a Cristo, como aquele que preencheria qualquer necessidade que eles tivessem de alcançar o Deus verdadeiro.
3o) Cristo, o Reconciliador de Tudo:
- Tendo apresentado a pessoa de Jesus Cristo, Paulo volta a discutir o seu direito de primazia em decorrência da sua obra (vs.20-22). Esta obra proporciona a visão dos benefícios que acompanharão os salvos no dia do encontro:
- A Paz entre os pecadores e Deus: PAZ = “Shalom”. Não refere-se apenas ao cancelamento de inimizade, como também à prosperidade que Deus concede aos seus amigos (Abraão, Davi,…). Esta relação de amizade foi ganha na morte de Cristo na cruz. Seu sangue homologou a Nova Aliança de Paz.
- Reconciliação: Reconciliação reflete duas palavras hebraicas que expressam a remoção da inimizade, criando, por um lado, uma atmosfera agradável e, por outro, acalmando atitudes hostis. Os reconciliados terão as seguintes características:
- Santos: Pecadores, que antes serviam prazerosamente a Satanás, são agora santos, inteiramente consagrados e separados para Deus.
- Inculpáveis: No grego, “amomos” descreve animais limpos, imaculados, aceitáveis para o sacrifício de Deus.
- Irrepreensíveis: Sem possiblidade de ser alvo de uma acusação efetiva.
4o) As Condições providenciadas por Deus: (v.23)
- Firmes na fé: É preciso perserverar na fé até o fim (Mt.24:13). Esta é a única base válida para a segurança da salvação (Jo.15:2-6).
- Alicerçados na Rocha: Sem que a nossa confiança esteja fudamentada na Rocha, não há base para presumirmos que de fato temos a segurança da salvação (Mt.7:24-27). Cristo é o único fundamento (1aCo.3:11).
- Esperançosos no Evangelho: Segue-se a condição de esperarem no evangelho que já ouviram (v.23b). O evangelho não significa boas-novas apenas para alguns, mas para toda a humanidade. Toda barreira de raça, cor, geografia, idade, língua ou tribo foi tirada, conforme Mt.24:14. Por isso ele deu aos seus discípulos a missão de levar o evangelho a todas as nações (Mt.28:20), e prometeu o poder incontido do Espírito para dar sucesso a esse empreendimento mundial de testemunhar dele (At.1:8).

